Primeiro, um bocadinho de história, breve e resumida. É comum ouvir referencias ao génio do Bill Gates, que teria fundado a Microsoft começando na garagem de casa dos pais, com uns amigos, a embrenhar-se nos meandros dos PC’s numas matínés quando voltavam das aulas. Ora, sem que tal implique qualquer desmerecimento do rapaz, o que se passou foi que ele foi “empurrado” para essa solução pelo então gigante da informática, IBM, que não quis “democratizar” o seu sistema Unix para uso da então novidade, na década de 80, os Computadores Pessoais.
O Gates fez o que muita gente tenta quando não tem dinheiro para comprar o que existe disponível no mercado (deve ter uma costela Tuga): produziu um sistema doméstico, meio tosco mas que funcionava, o DOS (Disk Operating System). O elefante IBM cometeu um erro crasso de gestão:subestimou o adversário.
O DOS evoluiu para o Windows, gerou a maior fortuna do mundo, e é aquilo que hoje conhecemos.
Ora, basta ouvir quem percebe para saber que o Windows tem grandes vulnerabilidades de segurança. O que importa aqui destacar é que, tratando-se de sistema dos EUA, existem portas de entrada nos sistemas Windows que a empresa não divulga, invocando razões de segurança nacional dos EUA.
É aqui que a nossa tranquilidade de espírito começa a vacilar, quando nos lembramos do Magalhães e da informatização dos serviços públicos do Estado com recurso a esta plataforma. Quanto ao Magalhães, já aqui foi referido.
A informatização dos serviços do Estado foi feita ao arrepio do interesse público. Por um lado, existindo outras opções, tanto comerciais como de licença pública gratuita, não se percebe porque o governo limitou a sua escolha a um sistema comercial. Por outro, não se ficou por sistema europeu, antes escolheu um americano, de empresa que foi objecto de várias multas bilionárias por parte da Comissão Europeia. Para um governo europeu, que se diz apoiante do Tratado de Lisboa é obra, é gestão danosa á escala europeia no seu melhor…
Por último, e no meio de toda esta confusão e com este enquadramento, não me admira nada que o governo tivesse acesso a um nível superior de segurança do Windows, (invocando aos americanos a segurança nacional, pois embora na Venezuela o engenheiro pareça mais um caixeiro viajante a vender material informático, não deixa de ser primeiro ministro de um país da UE, democraticamente eleito…), e possa entrar nos sistemas de quem quiser desde que esteja ligado á Internet.
O PR parece que só agora descobriu a pólvora.
Por explicar deixou no entanto um detalhe fulcral neste processo. Porque raio não desviou o seu acessor para outras funções apenas depois das eleições ? Por aquilo que disse parece que:
- 1) suspeita de escutas ou pelo menos admite vulnerabilidades 2) confia inteiramente no assessor 3) Desconfia de altos cargos do PS eventualmente metidos nisto 4) apenas retirou as funções ao assessor preocupado com a sua imagem de isenção 5) ETC., ETC
Sendo consensual que a pseudo-demissão do assessor veio beneficiar o PS nas eleições, tudo isto parecia um pagamento de um favor, a candidatura de Mário Soares propulsionada pelo Pinto de Sousa para minar o seu principal adversário, o Manuel Alegre, e assim garantir a eleição de Cavaco.
No entanto depois de o ouvir ontem á noite, expondo-se aos olhos do país como nunca tinha feito antes, pareceu-me ter visto o produto genuíno. Cavaco não é apto para o cargo que ocupa, pois não apreende a realidade do país e das forças e interesses que o asfixiam, prestando-se a episódios destes. É cada vez mais urgente renovar a nossa classe política, pois isto demonstra que existe uma outra asfixia a juntar á democrática: a geracional.