Os tempos que correm proíbem-nos de exercer a tolerância, então quando toca a assuntos sérios (daqueles que podem decidir o destino de povos, propiciar guerras ou outros do género) muito menos. Razão pela qual sempre desconfiei da desculpa oficial pelo descalabro do sistema financeiro nos EUA, desculpa essa papagueada pelos media em geral, incluindo imprensa supostamente especializada ( a tal dita de negócios…).
O subprime ou créditos basura (gosto mais do termo castelhano, tem mais a ver com o caracter de quem escolheu este problema menor para tentar desculpar-se de gestão danosa de muito maior calibre) apenas foi escolhido para tentar lançar o odioso da questão para cima dos actores mais fracos de toda esta peça, as classes mais baixas dos EUA a quem foram impingidos estes contratos.
A verdadeira origem de toda esta situação está num outro monstro criado e alimentado exactamente por aqueles que tentam responsabilizar meia duzia de insolventes pela situação: o volume de DERIVADOS que existe hoje em dia a pairar sobre todo o sistema em maior ou menor grau dependente dos bancos dos EUA (e não só) e que começou a colapsar com os resultados que já começaram a ver-se.
Portugal não pode afirmar que nada tem a ver com isso.
Em primeiro lugar, porque pessoalmente não acredito que quem dispõe de informação previligiada e muito antes do cidadão comum, não se tenha há já muito tempo apercebido disso. O actual Presidente da Republica deve ter sido um dos primeiros a ver o Monstro, que nomeou há já alguns anos e que, em lapsus linguae publico, rapidamente transferiu para o défice público (penso mesmo que é uma das razões que faz com que apresente sempre aquele ar compungido).
Em segundo lugar, porque parte desse mesmo défice contribuiu para alimentar o referido Monstro, quando o governo português vendeu uma fatia grande de créditos incobráveis ao Citibank para cumprir os limites impostos pelas regras da UE. Comparando com o actual plano do Cartão de Crédito dos 700 biliões de dólares nos EUA, cá como lá, tratou-se de “plano de salvação nacional” enfiado pela goela do contribuinte abaixo sem apelo nem agravo. (O americano agora está a custar mais a engolir, o timing não é o mais indicado). Chama-se a isto em bom português: empurrar com a barriga….
Vale a pena olhar para este gráfico, onde se pode ver que 2003 foi o ano histórico em que o dinheiro imaginário (derivados, o MONSTRO) ultrapassou o dinheiro real, o PIB do planeta que habitamos. Ou seja, o valor agregado dos contractos que espelham a ilusão do lucro fácil (disfarçados de gestão de risco) ultrapassou a riqueza real, aquela que provem de produção industrial ou troca de mercadorias. Desde então não parou de aumentar, enchendo uma bolha global que começou a estoirar…
Curiosamente, esta curva ascendente coincide com a da subida do mercado de fretes em geral, e permite ver a verdadeira face da globalização nos termos em que pretendem impingi-la.
Este assunto é demasiado sério e deveria ser analisado e discutido por todos os habitantes europeus, pois presta-se a muitas leituras. A minha intolerância proíbe-me de ser condescendente com políticos, últimos responsáveis por este estado de coisas, pois quem criou ou consentiu este descalabro pode muito simplesmente pretender instalar um cenário social e económico que facilite a aceitação de um estado de guerra por parte dos povos que pretendem que nela participem, ou seja, nas nossas democracias ocidentais as decisões maiores estão por norma presas a aprovações parlamentares, referendos, escrutínios públicos, etc. , pelo que na cabeça de muitos responsáveis pode simplesmente desenhar-se uma opção para conseguirem os seus intentos: colocar as pessoas perante factos consumados.
O processo está em curso e podemos assistir ao vivo e em directo: basta seguir nos noticiarios o que se passa nos EUA, tanto no seu dia a dia de campanha eleitoral como de evolução do colapso do sistema financeiro. Agora lembre-se o leitor das palavras de ontem de Hugo Chavez quando informou o mundo do seu recente acordo militar com a Russia e da sua estreita aproximação comercial com… a China ( a verdadeira, não Taiwan).

Publicado por aosabordamare 

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