Bretton Woods, o sistema

05/12/2007

No Portugal de hoje, quando se fala do “sistema”, o nosso pensamento tende a ser sugado para o futebol e seus meandros, tal a pobreza de temas dos nossos media, particularmente televisões.

No entanto, este texto aborda outro tema, muito mais importante: dinheiro.

Este blog centra-se em transporte marítimo, que não existe sem compra e venda de mercadorias, as quais por sua vez não se podem fazer sem o dito (podem, mas agora não vem ao caso), pelo que o tema é incontornável.

Talant de bien faire, lema do Infante D. Henrique

Os da minha geração (e não só) que não estudaram em profundidade economia ou finanças, e que não encaram o dinheiro como uma coisa natural (coisas naturais são o céu e as nuvens, e o sol que nasce e se põe todos os dias), ficaram com aquela noção básica de que as notas do Banco de Portugal seriam um título de dívida, um documento que garantia ao portador que aquele valor corresponderia a uma fracção do ouro em barras ou lingotes que o banco teria guardado na sua sub-cave, trancado a 7 chaves.

Não seria o mesmo que termos o ourinho no bolso, mas sempre era um pensamento reconfortante com o qual fomos vivendo, até ao dia em que insistentemente se começa a falar em surdina de crise financeira, alcunhada de crise do subprime dos EUA, etc…o que nos obriga a tentar perceber afinal o que se estará passando ?

Primeiro, há que descodificar os termos que nos apresentam: subprime, no Standard College Dictionary que costumo utilizar e que até ao momento não me deixou ficar mal, pura e simplesmente não consta.

Vamos à Wikipédia: subprime, na versão em português, leva-nos à seguinte página. Vale a pena ler, basta seguir a ligação. A Wikipédia em inglês tem um texto mais extenso, mas basta o primeiro parágrafo para fazer alguma luz sobre o conceito:

* tradução-livre do referido parágrafo – ” Os empréstimos de subprime, também chamados de papel-B, near-prime, ou empréstimo de segunda-chance, são aqueles concedidos a solicitantes que não se qualificam para as melhores taxas de juro do mercado, por causa do seu deficiente historial de crédito. “

Ou seja, alguém (muita gente) não pagou os seus empréstimos e quem se lixa é o mexilhão.

Mas como é que isto cá veio parar ?

- Através daquilo a que chamam derivados ou produtos estruturados. Os bancos que emprestaram não quiseram assumir sozinhos o risco de tal empréstimo, e aproveitaram-se do seu posicionamento na praça para por sua vez emitirem títulos de divida suportados por tais empréstimos, por sua vez comprados por outros bancos (se o leitor chegou até aqui e se lembrou que tem algum dinheiro aplicado em fundos no seu banco, será melhor que faça uma pausa e vá rapidamente ao site do seu banco ver qual a composição da carteira do fundo), os quais por sua vez os oferecem aos seus clientes.

É óbvio que se quem deve não paga, e o banco por sua vez está a contar com esse dinheiro para honrar dívidas que entretanto assumiu com terceiros, chegar-se-á a um ponto no tempo em que a divida vence e o pagamento será devido: na hora da verdade alguém terá que pagar ou encaixar o prejuízo.

A situação parece ser um tanto mais complexa que isto, mas na base estarão situações deste tipo, fáceis de entender. Quase apetece dizer que, se estes tais empréstimos eram meras obras de caridade, para dar um tecto a necessitados insolventes como agora parece quererem fazer-nos engolir, mais valia terem cá vindo falar com a Santa Casa da Misericórdia, as coisas por aqui até nem são caras e a Santa Casa certamente lhes teria facultado um franchising por bom preço…

Mas afinal donde raio surgiu aquela ideia de que o dinheiro estaria directamente ligado ao ouro ?

Do tal sistema Bretton Woods, que não é nem mais nem menos que uma localidade em New Hampshire nos EUA, onde em Julho de 1944 se reuniram 730 delegados dos 44 países aliados na 2ª Guerra Mundial, para desenhar um sistema monetário que regulasse o comércio mundial após o fim da guerra.
O sistema foi efectivamente desenhado e ratificado pela maioria dos países, dando origem ao FMI e BIRD entre outros, e basicamente assentava no compromisso dos países em manterem o valor das suas moedas relativamente fixo, com um intervalo de variação máximo de 1% comparativamente com o preço do ouro. Por sua vez o FMI funcionaria como ferramenta niveladora, para colmatar situações em que os países não conseguíssem manter a variação cambial na janela de +- 1%.

O sistema entrou em colapso em 1971, na sequência da desvinculação dos EUA do compromisso de manter a paridade com o ouro.

A partir daí as coisas mudaram de figura, com o consequente descontrolo no comércio mundial, onde existem hoje países com défices astronómicos e outros com superavits igualmente colossais, o que obviamente origina grandes desequilíbrios financeiros. O fim deste sistema e a mercantilização das moedas veio introduzir um factor acrescido de instabilidade, pois a saúde do comércio mundial obriga a que as trocas obedeçam a um mesmo denominador comum na valorização das mercadorias e serviços, daí a estreita janela de variação de +- 1% no sistema Bretton Woods.

Ou seja, a diferença de custo de um produto chinês para o europeu não é apenas a que decorre da diferença de salário de um trabalhador chinês para o europeu. Se assim fosse, essa diferença iria sendo gradualmente eliminada pela valorização do renmimbi, pois a partir do momento em que o dinheiro se mercantilizou, as leis do mercado iriam obrigar a moeda chinesa a valorizar em face da tremenda procura que iria ter para lhes pagarem os produtos aí comprados. Só que na prática não tem funcionado assim. No actual estado de coisas, essa diferença basicamente apura-se entrando em linha de conta com as tais diferenças de salários e outros custos + o desfasamento artificial das taxas de câmbio entre as moedas +- a diferença do custo de transporte entre as respectivas origens e o consumidor final.

No actual panorama mundial, o dinheiro deixou de ser um mero reflexo do valor dos serviços e mercadorias, para se tornar um activo autónomo e transaccionável. Há quem defenda que esta mercantilização das divisas abriu a porta para a manipulação artificial das taxas de câmbio, embaratecendo artificialmente os seus produtos. O Japão é um dos países a quem apontam o dedo e a China parece seguir a mesma tendência, o que talvez explique a recente viagem da Comissão Europeia à China para prestar vassalagem aos maoistas (mascarada de Cimeira). O que realmente foram lá fazer foi suplicar ao governo Chinês que deixasse valorizar a moeda (os chineses de parvos não têm nada e parece que já aprenderam o mecanismo com os japoneses) de forma a que o Renmimbi/Yuan subisse e aliviasse um pouco a sangria de dinheiro que vai daqui para a China, alimentada pelo consumismo irracional do nosso estilo de vida e por navios de 11.000 contentores de capacidade em vai-vem permanente (sistema montado e de propriedade de europeus; a maior companhia é dinamarquesa, daquele velhinho com pinta de Imperador da Guerra das Estrelas que esteve aqui há tempos a falar com o Presidente da República).

Para consumo interno, deixaram uma ridícula declaração de protesto contra a violação de direitos de propriedade intelectual, quando toda a gente sabe que esse problema é secundário quando comparado com o défice comercial de mercadorias, e afecta muito mais os EUA que a Europa (piratagem de filmes e software). Como se não bastasse á comitiva da U.E. andar a fazer fretes ao governo Bush, ainda teve que engolir a serena e contundente resposta dos Chineses acerca do desequilibro da balança comercial:

” Vocês vejam lá se se organizam, pois ainda a semana passada cá esteve um vendedor vosso, um rapaz despachado de nome Sarkozy a quem comprámos 160 aviões Airbus, que custaram uma nota preta. Você quer ver o contrato ? Devo ter por ali algures guardada uma cópia…”

Para matar saudades, aqui fica o que faltava da nota de 10 contos:

Infante D.Henrique 1394-1460


A conveniência das bandeiras

03/12/2007

Este texto não é um contraponto ao texto anterior, mas sim um desenvolvimento e uma perspectivação do mesmo no cenário mundial. É evidente para qualquer observador atento, que este tema é vulgarmente relegado para segundo plano, pois a teoria económica tradicional encara este sector como secundário e marginal, na medida em que:

1. A procura de transporte é considerada uma procura derivada da procura das cargas objecto desse mesmo transporte. Vide as noticias recorrentes na imprensa de economia acerca do aumento das commodities, onde ninguém se refere ao aumento da componente frete, incorporada nesses agravamentos de preço.

2. O custo sempre foi tradicionalmente considerado marginal, pois é por norma calculado por métodos indirectos que conduzem a valores relativamente baixos. Por exemplo, a última RMT (Review of Maritime Transport) das Nações Unidas, publicada a semana passada, refere os valores contabilizados em 2005 como totalizando 632,4 biliões de U$ pagos em fretes em todo o mundo, que corresponderão a cerca de 5,9% do valor CIF das mercadorias.

Os valores acima são médias mundiais, onde a média dos países desenvolvidos (onde Portugal se inclui, estatisticamente falando) consegue ser ainda inferior, de 4,8% do valor CIF das mercadorias.

Ora, estes valores pouco ou nada têm a ver com a realidade em muitos sectores-chave para a sustentação económica de muitos países, nomeadamente no sector das PME, como se pode observar na estimativa constante do documento “Fretes Handymax” , disponível seguindo esta ligação.